
BIOGRAFIA

Nasci em 1971, um ano de muitos acontecimentos mundiais.
Pelé faz seu último jogo com a camisa do Brasil, a Disney World é inaugurada,
a NASA lança a Apolo 14 para o espaço, Luis Armstrong morre aos quase 70 anos
e também neste dia 18 de Julho, as 09:48 horas, no Hospital Rechts der Isar
em Munique o mundo me recebe de braços abertos. Quando meu Pai se
aproximou para me ver pela primeira vez, eu estava dormindo,
no colo da minha mãe e coberto até o pescoço. Somente minha
cabeça e minhas mãos estavam de fora, parecendo estar
segurando o cobertor. Primeira coisa que ele notou, foi que,
na mão esquerda só tinham quatro dedos e quase em pânico,
chamou o médico para pedir explicação e em poucos instantes
o mistério foi revelado. O meu dedo anelar estava, como único dedo,
por baixo da coberta para o alívio do meu Pai, que, por vez,
já imaginaria eu como músico guitarrista.
Apos uma semana de internação por conta da intervenção cesariana, conheci meu primeiro lar na Taubenstrasse 2 em Munique, como já descrito na biografia do meu Pai, ao lado do local de atuação LA CUMBIA.
Como vivíamos ao lado do principal local de trabalho, eu, mesmo bebe estava sempre presente quando estavam se apresentando. Lembro que todas as pessoas que estavam ao meu redor, sempre me tratavam com muito carinho e respeito. Sempre recebi muito amor e dedicação de todos que estavam relacionados conosco.
Minha mãe me contava que, sempre quando chegava a hora de amamentar, ela abandonava o palco para satisfazer minha fome nos bastidores e retornava rapidamente para cumprir suas obrigações. Com isto meu pai, que nunca gostou de cantar e ser centro das atrações, teve que superar esta dificuldade e cantar nestes momentos em qual minha mãe estava ausente.
Mesmo já residindo em Munique, meus pais sempre tiveram que retornar ao Brasil a cada três meses, primeiramente para não ter uma situação iregular no País estrangeiro e também para visitar os familiares que ficaram na saldada dos dois. Neste vai e vem, conheci basicamente o Brasil.
Como meu Pai sempre tinha medo de viajar de avião, eles, escoliam o modo marítimo que oferecia, apesar da demora de quase vinte dias, um conforto enorme. Eram navios de nove ou mais andares, transoceânicos com todo conforto possível. Cinema, Teatro, vários Restaurantes, Casa de jogos, piscina, ginastica, em fim, tudo que alguém poderia fazer em cerca de três semanas. Eu, como criança curiosa, ficava maravilhado com o mundo novo que se apresentava a minha frente.
Entres as minhas idas e vindas conheci minha família Paulista e Carioca. Conheci também festas brasileiras e pude viver um pouco minha infância desfrutando a vida familiar brasileira, conhecendo a vida dos dois continentes. Um fato engraçado foi que, quando estava no Brasil, falava português, porem, quebrado e demorava me soltar tendo vergonha de falar esta língua e, por outro lado, demorava um polcado também quando retornava para a Alemanha para me adaptar a falar o alemão.
Aos 5 anos frequentei o jardim de infância em Munique, e quando estávamos no Brasil frequentei uma pré-escola em São Paulo.
Já mais estabilizados e assentados em Munique, mas ainda não em estado regularizado, chegava mais e mais a preocupação dos meus pais, de como seria a minha inscrição em uma escola pública ou, em geral, o nosso futuro na Alemanha.
Um dia, a minha mãe tomou a coragem e decidiu resolver a questão da imigração e sem o conhecimento do meu Pai foi ao “Kreisverwaltungsreferat” (departamento responsável pelo registro pessoal em Munique) para ver, o que ha de ser feito para resolver o problema, considerando o meu nascimento em Munique por Pais estrangeiros, com o desejo, de continuar residindo na Alemanha.
Minha mãe chegou ao este órgão neste dia com as mãos suando e com um medo que imagino por longe, com um sonho de permanecer e poder criar o único filho com a qualidade e dignidade que, imaginavam ser o melhor para a minha educação pessoal e acadêmica. Uma incerteza grande e um medo imenso de um regime tão temido e rigoroso. Chegando nesta sede minha mãe retirou a sua senha e aguardou com ansiedade sua vez. Quando foi chamada a sala ela se deparou com um homem de idade media, manco e careca de statura cheia e com semblante bem sério. Seu nome era Herr (Sr.) Adametz. Com todo charme e educação, sem dominar ainda muito a linguá local, minha mãe explicou a situação que, eu seria nascido aqui em Munique, seriamos todos brasileiros, que eram músicos sendo profissionais liberais, não necessitando de verba ou ajuda das autoridades alemãs, e gostariam de permanecer em Munique. Herr Adametz relatou os fatos e anotou tudo que precisava. Além de ser um funcionário público na função do cargo dele, Herr Adametz também curtia Locais e Bares com música ao vivo, e por coincidência, conhecia meus pais e admirava este grupo tão estranho Brasileiro que estava se apresentando em Munique. Com um olhar profissional de desconfiança e outro de admiração pela arte, enviou o pedido para o superior que emitiu o visto de estadia para nossa família com a restrição de somente poder trabalhar como músicos autônomos. A felicidade e gratidão foi enorme.
Lembro-me de Herr Adametz muito bem. Na minha juventude tive que ir a esta sede muitas vezes para refazer meu visto, que tinha que ser renovado a cada cinco anos, ate meus 16 anos. Lembro dele como, uma pessoa muito agradável, sorridente, principalmente por me conhecer desde pequeno.
Aos meus 7 anos meus pais me inscreveram na escola pública em Munique. Devido aos meus estudos, e com a situação de imigração legalizada as viagens para o Brasil foram reduzindo e meus pais também investiram na carreira musical já que basicamente eram os únicos que representavam a música popular brasileira. Existia também um grupo enorme de quase 40 integrantes, que se apresentava, promovendo a cultura brasileira. O grupo importava, por tempo limitado, capoeiristas, músicos, bailarinos e artistas diretamente do Brasil para uma turnê anual. Era o grupo Brasil Tropical com seu líder Camisa conhecido como mestre Camisa da Abada Capoeira.
O Brasil Tropical só se apresentava uma vez por ano e somente uma vez por cidade ajudando assim a promover a cultura brasileira aumentando o interesse dos Europeos. Uma amizade e colaboração entre os dois grupos resultou em varias novas amizades. Meus pais estavam na Europa o ano todo então se apresentavam quase diariamente em Munique e nos fins de semana sempre viajávamos para shows em outros países.
Começando se relacionar com uma alemã, Peri (mensionado na biografia do meu Pai) não estava mais disposto a trabalhar como músico atuando pelas noites e pressionado pela namorada ele se tornou professor de percussão e violão em Munique. Na mesma época meus pais encontraram o Mario. Mario um percussionista brasileiro, branco meio gordinho com barba que tocava atabaque. Uma novidade na Europa já que Peri tocava o surdo. Mario era pai de Família, mas com a disposição de viajar e atuar como músico pelas noites europeias. O Trio Veneno Brasil começava a tomar forma tornando se mais e mais conhecido.
Por volta de 1979 meus pais receberam um convite de um sujeito chamado Manfred Lem, dono de um Local musical em Wuppethal, Alemanha que se chamava "Kunstlertreff" traduzido "encontro de artistas". Wuperthal é uma cidade antiga com suas construções rusticas por um lado, por outro lado, moderno e bem avançado tecnologicamente. Uma cidade que eu com meus 8 anos adorei. Wupperthal tem um sistema de transporte suspenso e isto me fascinava. Queria andar de bonde suspenso o dia inteiro, era igual um parque de diversão. Sem falar do hotel em qual éramos hospedados ao lado da linha de trem que, quando passava, tremia tudo ao seu redor, uma vez aconteceu até que meu pai caiu da cama. Foi muito divertido.
Lem, o dono do local, ficou tão encantado com o trio, sua música e a apresentação, que promoveu e financiou o primeiro disco deles. De "trio Veneno Brasil", eles se tornarão Grupo Veneno Brasil e gravarão seu primeiro LP vinil de nome Lembranças com músicas já conhecidas e músicas autorais como Lembranças (relatando as lembranças do Brasil), Quando (Homenagem a minha avo), Parabéns querida (Presente de aniversario para a minha mae), Rei da baixaria (homenagem a familha do meu Pai principalmente a meu avo) e outras.
Neste Disco, nas músicas e letras reconheço hoje a saudade que eles sentiam da velha terra que deixaram para trás, se promovendo em prol da minha educação, visando para mim, uma vida mais fácil da qual eles tiveram.
Uma linda música escrita por eles é “Quando” uma homenagem a minha avó que tinha falecido recentemente e eles não podiam viajar para o Brasil para prestar a última homenagem e enterro dela. Um belo dia, todos em casa, minha mãe recebeu uma ligação internacional e reparamos no semblante dela que se transformava de tristeza para lagrimas de enorme dor. Eu não estava entendendo o que estava acontecendo e quando ela desligou, ela nos deu a notícia do falecimento de minha avó. Contou, que minha avó estaria assistindo televisão e quando o irmão da minha mãe queria tirar ela da TV ela já não respondia mais. Minha mãe se abaixou, se virou para nos e caiu em prantos. Meu Pai envolveu-a em um forte abraço, e apos alguns instantes ela falou-me "Não se preocupe, sua avó esta bem, em outro mundo, um lugar repleto de felicidade, luz e paz. Ela dormiu e acordou lá". Infelizmente ela não voltaria mais ela sempre estará dentro dos nossos corações.
Na realidade, fiquei mais triste por ver minha mãe chorar do que pelo fato de não ter minha avó mais. Senti sim uma dor pela perda sendo que basicamente foi ela a primeira pessoa conhecida que tinha morrido. Um sentimento bem estranho, mas por não ter tido tanto contato com ela e acredito também pela minha idade, eu não estive de luto e com isto nossa vida continuou.
Ainda como músicos de Bares e de locais noturnos meus pais sempre tiveram a sorte e a ajuda de Deus de me oferecer tudo o que precisava. Posso dizer que tive tudo. Tudo bem, meus amigos tinham muito mais do que eu, tinham na época Atari, Comodore Bike BMX, ect e eu não, mais isto não me incomodava, sabia que quando os meus pais pudessem, eles me dariam e assim sempre foi. Aprendi a ter paciência e aguardar o momento certa para que as coisas acontecem, com a certeza que tudo acontecera a meu favor. Meus pais comentavam que nunca insistia em algo, sempre soube esperar.
Um Local entre varios outros a onde eles se apresentavam em Munique foi o Bar Domicil. Uma casa noturna cultural musical no certo de Munique, localizado na Leopoldstrasse, que oferecia todas as noites, música ao vivo de todas as espécies, Blues, Rock, Jazz, Pop e música popular brasileira aonde meus pais tocavam semanalmente e em ocasiões especiais. O Domicil era um Bar subterrâneo e me recordo que na estrada bem ao lado da porta de entrada do Local, um turco tinha sua vendinha de pizzas e bebidas. Adorava a Pizza em fatias dele e todas às vezes que meus pais tocavam no Domicil, eu comia uma Pizza. A Leopoldstrasse era conhecida por ser a avenida principal da juventude. Os locais, discotecas e bares mais badalados estavam lá. Até hoje a avenida e tida como a avenida mais popular de Munique.
No Domicil meus pais conheceram a dona Anita, uma brasileira, senhora muito simpática que era a cozinheira do Bar, que quando oferecia a música brasileira surpreendia com os pratos tradicionais brasileiros. Breve Anita e seu marido João se tornaram grandes amigos.
Um detalhe, somente após muito tempo veio ao meu conhecimento, que Anita e João seriam os pais do hoje conhecido Dudu Nobre que posteriormente fez carreira como musico de Zeca Pagodinho e hoje tem seu merecido sucesso na sua carreira solo.
Meu Pai sempre gostou de artes marciais apesar de ser um homem bastante sedentário. Ser sedentário significa não praticar atividade física, bom, meu Pai iria de carro da sala ao banheiro de tão sedentário. Vejo aqui o esforço dele enorme para me acompanhar nas atividades, dizendo que, ao contrário, minha mãe era muito ativa e sempre estava jogando, brincando e me acompanhando em qualquer atividade. Meu Pai nos inscreveu em uma academia de Caratê de um clube bem conhecido de nome 1860, e juntos íamos as aulas de Caratê. Ministrado por um professor Croata bem sério e rígido onde conheci diferença entre números matemáticos e flexões de braços. Foram muitas por cada piscada errada. Infelizmente nosso Sensei foi preso por agressão. Nunca soube a razão, mas deixamos o curso de Caratê que frequentávamos por 2 anos.
Neste tempo participei até de um campeonato e como meus Pais sempre me acompanhavam, estavam eles na plateia, cheio de orgulho para torcer por mim.
Meus pais tinham adquirido aquelas maquinas de fotos instantâneas Polaroid, então, foi meu azar. Querendo tirar uma foto do seu filho em ação no ringe, na primeira disputa de um campeonato Regional, minha mãe ficava me chamando “binho, olha pra cá, Fabinho, oi, dá uma olhada ect.” E eu, olhei. Neste momento levei uma direita que me levou diretamente ao chão. Apavorado minha mãe correu para o Ring, sendo expulsada pelo juiz e com isto, fui eliminado e obrigatoriamente tive que encerar minha carreira pelo fato de que, Caratê seria muito agressivo. Apesar de viver na Alemanha, bem distante da cultura brasileira, tivemos através da música sempre muito contato com brasileiros que viviam em Munique. Um deste contato era Marinho Fiuzza que era coreógrafo do grupo Brasil Tropical. Martinho dava aula de Samba, Afro e Capoeira sendo o único a promover a cultura na área de dança em Munique. Eu era, com meus nove ou dez anos, o mais jovem membro dos mais ou menos oito alunos que frequentavam as aulas de Capoeira, quase todos alemães. Tinha um brasileiro alemão de 50 anos de idade, duas mulheres e um que me recordo bem de nome Mathias que tinha uma facilidade na parte acrobática que me fascinava. Queria também fazer todas as manobras como flick flack, salto mortal, plantar bananeira controlando milimetricamente os movimentos. Nesta idade eu tinha uma boa flexibilidade e Martinho sabia explorar isto e breve soube fazer as manobras acrobáticas tendo apoio de todos do Grupo. Um dia Martinho recebeu em seu estúdio a emissora de TV Bayern 3, que era a emissor principal da Bavaria e estava lançado uma seria de programas mostrando a cultura do mundo inteiro. Martinho tinha me avisado que iria acontecer esta demonstração e pediu para que eu ficasse bem quietinho e não me intrometesse sendo muito importante para ele está possibilidade de mostrar seu trabalho na TV Nacional alemã. Quando o pessoal da TV estava se preparando para gravar, minha mãe me disse para que eu mesmo no cantinho, começasse a fazer alguns movimentos da Capoeira. Logo consegui o meu propósito, um homem da equipe da TV perguntou para Martinho quem era este menino que pulava lá no canto? Martinho respondeu que eu era um aluno de Capoeira dele e após um breve debate entre a equipe da TV, o Grupo foi também convidado para a gravação. Sempre tive uma admiração enorme atrte da Capoeira que sempre me acompanhou ate hoje, amo e admiro e me concidero tambem filho de Pastinha e Bimba.
No meu quinto aniversario ganhei meu primeiro violão, na sala do apartamento da Taubenstrasse e comecei a tocar me sentindo "meu pai" com seu violão, amei. Logo aprendi a tocar as minhas primeiras musiquinhas como Chochuá e outras bem simples. Eu sempre fui muito ativo e com isto minha atenção nunca ficava em um assunto só. Amava violão, mas tinha preguiça de aprender e com isto nunca me aperfeiçoei pelo desgosto do meu Pai. Eles sempre me deixavam bem a vontade de decidir e escolher aquilo que queria fazer, mas nunca insisti em alguma atividade ou aprendizado, sempre praticava as coisas “just for fun”. (Por diversão)
Nesta altura ou fase da minha vida, já dava para perceber que os meus talentos eram Música e as artes marciais, ou seja, atividade física. Os meus boletins de escola portavam isto em todos os anos. Enquanto minhas notas em qualquer matéria era media para ruim as notas para Atividade Física e música eram excelentes.
Ainda moramos na Taubenstrasse, o jardim de infância e o primeiro anos de escola logo ao lado do Jardim de Infância. Minha mãe adorou esta escola pública por ensinar a língua francesa logo no primeiro ano. Infelizmente só frequentei um ano este colégio. Mudamo-nos para a Orleansstrasse 43 ao lado do Ostbahnhof, um beiro na época multicultural e bem histórico. O prédio era bem antigo construído logo após a segunda guerra e com isto bem rustico. Nosso apartamento era grande tinha 3 quartos no terceiro andar, eram 6 lances de escadas de onze degraus cada, sem elevador, o teto era de uma altura de mais de 3 metros. A proprietária, Frau Ederer, já com seus 70 anos, uma senhora bem alemã e seca, permitia cães e gatos no apartamento mais tinha uma antipatia enorme a crianças. Não sei por que, mas fui a única criança que abitava em uma das 15 unidades deste prédio na qual Frau Ederer era proprietária de todas as unidades. Frau Edere morava no primeiro andar e “ai de mim” se fizesse barulho ou bagunça nos corredores do prédio. Tinha medo de simplesmente encontrar com ela, sempre tive a impressão, que ela era uma mulher muito má, semelhante a uma bruxa descreveria a sensação quando a enfrentava. Hoje penso que as duas partes tiveram a lição do destino, pois sempre quando ela encontrava comigo eu enxergava um sorriso e retribuía até que esta impressão inicial se desfazia aos poucos. Tínhamos um quarto no porão para deposito aonde depositávamos o equipamento de som e outras coisas, tinha por volta de 10 metros quadrados e era úmido, velho e bem rustico, um corredor longo, algo que realmente lembrava mais um bunker de gera do que um local de deposito, e cada unidade tinha seu quarto. Local ideal para brincadeiras mais obscuras como aquelas de Drácula e terror. Tínhamos também um espaço no Soto que era um pouco mais iluminado mais também bem sujo e velho.
A minha nova escola era pertinho de casa na Bazeilesstrasse e íamos sempre a pé eu e a minha mãe. Como meu Pai sempre tocava em um Night Club frequentado por muitos Israelitas de nome Shalom, sempre chegava tarde em casa e dormia até mais tarde. Muitas vezes chegava das aulas mais sedo e tive a alegria de despertar meu pai. O dono do Shalom era muito amigo da nossa família e o local era muito bem frequentado. O dono era muito rico, tinha muitas propriedades na Alemanha e em Cote d´Azur, Monte Carlo, e mostrava seu poder com seus carros e propriedades.
Como já disse, meus pais tentavam o grande sucesso na Europa e realmente trabalhavam muito, mas como todos sabem, a vida de artista nunca e fácil principalmente na parte financeira. Lembro que nossa primeira mobília do apartamento da Orleansstrasse foi adquirida pelo valor muito baixo de um hospital que tinha falido e para recuperar um pouco a dívida, venderam os leitos, armários e as mobílias. Então segundo meus pais fizemos bom negócio. E realmente a mobília era excelente. Minha cama era macia e tinha um compartimento na lateral para deposito de roupas de cama. Para mim era meu esconderijo favorito, aonde eu colava os cartazes dos meus ídolos musicais na época. Quase tudo que tínhamos era comprado de segunda mão ou era usado. Muito raro eu ter alguma coisa que fosse novo, mas isto nunca me importou.
Ainda continuávamos a viajar pela Europa aos fins de semana. Na maioria das vezes sempre de carro. Ainda estávamos vendendo o primeiro Disco Lembranças que tinham gravado em Wuperthal. Como pagamento, meus Pais receberam vinte por cento dos Discos produzidos para que eles mesmos os vendessem e conseguissem aumentar o orçamento e assim sempre quando viajávamos tínhamos muitos discos para vender.
Antigamente, viajando de carro, tínhamos, quando íamos para Áustria, Suíça, Itália, Espanha, França e Portugal ect passar pela polícia federal e por fronteiras para controle de passaporte. Era sempre uma agonia mesmo tendo nossa situação regulamentada. Em uma desta viagem, estávamos indo da Alemanha para a Áustria, nos pararam na fronteira para revistar. Meus Pais estavam um pouco nervosos, eu, não sabia por que. Após de apresentar os passaportes, os oficiais retornaram ao carro e perguntaram se tínhamos alguma coisa a declarar. Eu “ainda” estava quieto. Sabendo da situação financeira e com a vontade de ajudar os meus Pais a recardar uns "Marcos" (moeda alemã antiga), comecei a conversar com o Policial, oferecendo o nosso disco para venda. Não percebi que meus pais começaram a suar e EU no meu elemento de vender, oferecia ao Policial o LP recém lançado. Quando ele perguntou quantos LP´s nós teríamos conosco, temendo a minha resposta, meus pais quase enfartaram. Respondi naturalmente e na maior vontade de ajudar “Temos muitos aqui em baixo do Banco”. Pronto, em seguida pediram aos meus pais para se retirar do carro, nos levaram para a delegacia na fronteira no Bodensee e meus Pais tiveram após de um longo interrogatória se explicar e declarar os discos pagando uma fortuna para que fosse liberado a nossa passagem. É, as vezes tentamos ajudar e ... Esta história ficou para muitos anos motivos de raiva e também de grandes gargalhadas.
Se posso comentar sobre viagens e férias, na realidade nunca fizemos “Férias” no sentido comum que seria: Desligar do dia a dia, desconectar do trabalho e relaxar. Bom para mim tudo era festa, cada viagem que fazíamos para mim era feriado ou férias, com isto eu tive férias todos os fins de semana.
Meus Pais descobriram que Camping (acampamento) em lugares apropriados, comum na Europa, era um jeito econômico e muito divertido para passar férias em família. Viajávamos muito pela Suíça, Itália, Espanha, Portugal entre outros. Ficou gravado na minha mente, as vezes quando, muito jovem frequentávamos Luzern. Passávamos chapéu na ponte antiga de madeira para financiar nossas férias. Lembro muito dos chocolates e também do entardecer quando estávamos tocando avistando a distância as montanhas coberto parcialmente com neve.
Passamos a fazer férias em Garda. Lago de Grada. Um lago conhecido por surfistas de vela, que aproveitam a brisa de ventos fortes no Norte deste lago ou de, principalmente, alemães que querem ter um pouco de flair italiano barato e perto. Eu adorava. Acampar, dormir em sacos de dormir, em colchoes de inflar, comer comida que eram preparados sobre o fogo feito de lenha que eu e meu pai colhíamos nas matas, apesar de estar em um lugar apropriado para acampar com vagas prelimitadas e no verão lotados por austríacos e alemães com o mesmo objetivo de aventura.
Foram mais de 5 anos que viageávamos para a Itália e ficavamos entre Garda e Bardolino, hoje conhecido pelo vinho tradicional como o Valpolicella ou o próprio Bardolino. Todas as noites saiamos a pé beirando o lago passeando e admirando a paisagem por volta de 2 km até chegarmo-nos na praça beira lago para tocar. Tocávamos cerca de 30 a 40 minutos dependendo do movimento e depois íamos fazer um lanche em um trailer que, realmente, oferecia o melhor do fruto do mar como camarão frito, peixes fritos ou cozidos e calamares. O trailer se chamava "Albino peche fino", em fim um delicioso jantar após apresentarmo-nos em praça pública. Verão em Garda oferecia muitas opções, levantávamos cedo para tomar café que preparávamos sob um fogão de gás bem em frente da nossa cabana. O acampamento oferecia restaurante, vendinha, padaria e hortifrúti com tudo que se precisava, aonde comprávamos o pão, queijo e os melhores presuntos de Parma. Localizado bem na beira do lago, passava o dia inteiro na agua. Tinha um deck que era utilizado para pular, pura diversão. Lotava de crianças e eu logo, e sempre tinha novos amigos do mundo inteiro. Esta região tinha muitos atrativos, Caneva aquapark, que era um parque aquático gigante e com muita animação, apresentações de Baleias, Golfinhos e muita diversão. Só depois de adulto descobri que perto também tinha um Auto Safari, um zoológico, aonde os animais ficavam solto e passeávamos de carro dentro do parque tendo contato direto com os animais. Uma parada obrigatória em nossas férias era Gardaland, um parque de diversão quase como a Disney, adorava, me sentia no paraíso, e meus pais também curtiam por estar me proporcionando este momento magico e também porque o parque oferecia atrações que realmente impressionavam, não somente os mais baixinhos, mas também os grandes. Era mágico, era estar em outro mundo era muito bonito e legal.
Eu visitei este lugar muitos anos após de ser adulto e ainda sentia esta magia cada vez que estive lá. Apresentei da mesma forma, acampando e visitando este parque a minha esposa e ela, também ficou bastante enfeitiçado por este lugar.
No meu segundo ano de escola teve um acontecimento que me troxe minha primeira amizade verdadeira. A escola era frequentada por meninos e meninas de 7 aos 10 anos. Meus amigos de sala eram legais e tinha amizade com todos. Um dia, todas as crianças estavam no recreio no pátio, comendo seus lanches ou brincando, vi umas dez crianças em um circo fechado e não sei por que, mas queria ver o que estava acontecendo, já que cada vez mais crianças se aproximavam para ver o que estava acontecendo. Quando cheguei, vi que 4 meninos estavam provocando um garoto bem mais jovem, magro e bem intimidado, parecia ser do primeiro ano. Entrei no meio e tentei apazigua e acalmar a situação. Graças a Deus eu consegui e ninguém foi "ferido" e logo os professores também separaram a roda formada. O menino tinha um sanduíche na mão e ele virou chorando para mim e falou “você quer?”. Nasceu ai uma amizade que dura ate hoje. O nome dele era Dino, na realidade Bernadino, um Italiano raquítico de olhos grandes. Criamos uma amizade e passávamos todos os recreios brincando juntos. Ele tinha um irmão Donato que era da minha idade, Dino era dois anos mais novo, e uma irmã Nunzia que também era mais nova que eu. Logo frequentava a casa de Dino, Donato e Nunzia. A mãe deles Antoniela era uma mulher, alta, sempre muito produzida, era bem brava e gostava de dar broca em italiano no seu marido e nos filhos. Várias vezes também fui alvo das broncas. Antoniela estava gravida de Angelo que nasceu para acrescentar esta família que também se tornou a minha.
Continuando em minha infância e na escola do primeiro até o quarto ano, teve mais uma agradável passada que gostaria de deixar registrada. A Escola da Bazeilesstrasse tinha uma orquestra musical liderada pela professora Frau Goldberg qual também foi minha professora do terceiro e quarto ano e diretora da escola. Ela como boa pedagoga, sabendo da minha precedência, me escolheu para tocar um instrumento na orquestra da escola. Tocava o Xilofone. O Xilofone propriamente dito é um instrumento musical definido como de percussão, de altura definida ou de som determinado. Apareceu nas orquestras no século XIX. O xilofone ainda não é um instrumento muito usado. Compõe-se de uma sequência ordenada de placas de madeira ou metal, dispostas de maneira análoga às teclas de um piano.
Éramos mais de 15 alunos que tocávamos o xilofone baixo, medio e alto representando muitas músicas clássicas e da atualidade épica.
Como a Alemanha sempre procurava por talentos, em todas as modalidades, em uma apresentação da escola bem lá no fundo aonde tocava o xilofone baixo e de algum modo, chamei a atenção de um rapaz que, ofereceu para a minha professora, uma bolça integral para mim no o conservatório musical. E lógico que minha professora, após conversar com meus pais, iria receber a aprovação deles e me inscreveu com 10 anos de idade, no conservatório de Munique de Música. Frequentei somente um ano o conservatório, como já dito, eu era muito preguiçoso e nunca finalizava aquilo que começava e meus pais por respeitarem a minha vontade e o meu desenvolvimento pessoal, nunca me forçaram a finalizar qualquer atividade.
Nesta época meu pai contratou um professor de violão clássico. Aprendi a tocar, dedilhando "Yesterday". só que, pela minha inconstância abandonei após seis meses. Anos mais tarde, meu pai fez uma nova tentativa e contratou um amigo da Familia Paulo da Silva, brasileiro um grande musico que adorava Chorinho, Bossa Nova e as músicas mais elaboradas. Em 1985 meu Pai e Paulo se reuniram para escrever um livro didático de Bossa-Nova, publicado na Alemanha por Kurt Maas Musikverlag. Encontrei este livro recentemente e formatei para um curso online na plataforma Udemy, em homenagem a eles.
Outra atividade qual meus pais me inscreveram, foi o futebol. Todos os meus colegas estavam frequentando clubes de futebol. Perto de nossa casa tinha um clube, o TSV Munchen Ost. (Turn und Sport Verein Munchen Ost), que era bem cotado nas atividades que oferecia. Em todas disciplinas ele concorria já nas ligas mais elevadas. Um pouco mais distante, tinha um clube de nome DJK Fasangarten. Um clube bem pequeno, mas como os meus amigos mais próximos estavam lá, decidi frequentar este pequeno clube. Só após um tempo pude perceber que este pequeno clube era frequentado por Paul Breitner, Uli Hoenes e Karl Heinz Rummenige, jogadores de futebol muito famosos da seleção alemã que se reunião lá para ter um momento de lazer, jogar um tennis e se destrair. A Alemanha tinha na época recebido, após de uma atuação maravilhosa na copa de mundo, um goleiro Belga, de nome Jean Marie Pfaff, que por minha sorte também frequentava o clube DJK Fasangarten. Eu era fan dele e um dia quando tive coragem de pedir um autografo, ele me falou que já tinha visto eu jogar e se eu quisesse ele poderia me dar algumas dicas. Fiquei muito feliz e aceitei na hora o convite. Treinava muito e tentava fazer o meu melhor. Em um jogo amistoso contra o nosso rival vizinho TSV Munchen Ost, aonde jogavam muitos amigos, tinha um cassa talento do 1860 Munchen, um time de futebol que jogava na primeira liga profissional e depois do Bayern de Munique era o segundo clube mais importante de Munique. Apesar de perder de 5 a 1, recebi o convite para treinar com o time juvenil, na época estava com 13 anos e não aceitei por quasa dos meus amigos. Fiquei no DJK Fasangarten e fui selecionado para jogar contra o Unterhahing. Um time que estava investindo muito para subir para primeira divisão. Fiz um excelente jogo, defesas que até hoje não me esqueci. E desde já o Unterhahing me ofereceu 300 Marcos para jogar com eles. Enfim, como já dito, nunca finalizei as coisas que começava, e nesta epoca eu ja comecava a me interessar por namoradas, e sendo muita confusão aonde jogar quanto ganhar e contrato etc, abandonei a minha carreira de goleiro. Meus Pais nunca me forcaram a finalizar as coisas, talvez seria hoje um ex-goleiro rico porem não estaria aqui, contando “a minha” história desta forma.
Voltando para a musica, meus pais, que viviam sempre trabalhando por toda Europa, já com um nome conhecido e procurado, e nesta epoca já oferecendo o Grupo Veneno Brasil na formação de, Trio, Quinteto ou Banda (11 integrantes) e movido pela ambição da minha mãe, em conqistar ainda mais, decidiram organizar em Munique, em fevereiro, o primeiro festival “Fiesta Latina”. Com capacidade para três mil pessoas conseguiram lotar este evento durante mais de 10 anos, promovendo a música e cultura Brasileira e sul-americana convidando também diversos grupos e apresentações para participar deste evento. Eu ajudava na preparação como instalação do palco, luz, som, segurança das entradas e das saídas de emergências, direcionamento dos artistas nos camarins que chegavam, eram uns cinquentas artistas entre músicos, bailarinos, capoeiristas, técnicos entre outros. Coordenava a programação do evento que começava sempre as oito da noite até 4 horas da madrugada. Era enorme e nos trazia um sustento grande para o ano.
Conforme crescia aprendia como utilizar as mesas de som, luz, as normas de segurança e organização de eventos. Como meus pais tocavam e participavam do evento, sobrava para min a organização.
Quando tinha 15 anos os meus pais me chamarão para uma conversa mais seria, não tinha idea qual assunto e nunca imaginaria o que estava por vir. Reunimonos-nos na messa da cozinha e me lembro nitidamente da primeira fraze da minha mae. "O que você acharia se eu e seu pai nos separassem?" Neste momento surtei. Em prantos eu não queria a separação, muito mais por que eu nunca tinha presenciado sequer uma briga, discussão ou desacordo entre eles. Não comprendi. Por conta disto ainda ficaram juntos por, mais ou menos, um ano a onde os dois conversaram muito comigo e no fim comprendi e concordei com a separação em prol da felicidade deles. Mesmo morando com a minha mãe, sempre tive contato com meu pai que se mudou para um apartamento pequeno na Engelschalkinger Strasse. Os dois mesmo não vivendo mais juntos, ainda trabalhavam juntos seguindo com o Grupo Veneno Brasil.
Acredito que chegamos aqui no ponto aonde se separa um pouco a vida familiar com a
minha própria vida. Tinha a minha turminha da escola, começando a namorar e como todo adolescente, estava certo que era dono do mundo.