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ODETTE TEIXEIRA PEREIRA

20.45.1932           26.03.2022

Uma mulher à frente do seu tempo. Essa frase talvez possa designar, ainda que de maneira um tanto insuficiente, Odette Teixeira Pereira, esta carioca da gema criada no bairro do Méier. Nascida aos vinte dias do mês de abril daquele turbulento ano de 1932, em que as tropas armadas dos constitucionalistas de São Paulo e Rio Grande do Sul ameaçavam tomar a capital da República e derrubar o governo provisório de Getúlio Vargas, Odette viria a ser criada pela mãe, Hormerzinda Teixeira Pereira, ou, também conhecida pelo carinhoso apelido, (vovó) Bibina, devido ao fato de que seu pai, Alvaro Gonçalves Pereira, falecera, quando ela ainda era bebe, vítima de um acidente automobilístico a caminho de sua casa. Sendo a única mulher em meio a outros três irmãos, José Alberto, Valquir e Geraldo, Odette desde cedo enfrentaria as agruras de viver em uma sociedade na qual recaía sobre as mulheres o peso das hierarquias de gênero, naturalizando atitudes e condutas sexistas as mais diversas.

Ainda assim, Odette não se curvava diante de tais hierarquias e as enfrentava com bom-humor e, sobretudo, com muita determinação. Ora, o que dizer de uma menina-mulher que, diferentemente de chancelar docilmente o papel social de moça que deveria “brincar de boneca” contestava frontalmente essa condição, juntando-se aos seus irmãos para participar de brincadeiras “masculinas”? O que dizer daquela garota que fugia de casa para se juntar às amigas e irem sozinhas aos bailes de sua época? Que a chamassem – como de fato chamavam – de “atrevida” ou “revoltada”, pois isso pouco importava. Como dizia Aurora, cujos serviços prestados na casa de vovô Bibina iam muito além da simples “lida doméstica” cotidiana, mais importante do aquilo que falavam de Odette, o que deveria estar em jogo para para ela seria viver seus sonhos e seus desejos de menina, sem se entregar a normas e clichês.

Se é uma dura verdade que a “entrada no mundo adulto” tende a esterilizar essas qualidades tão candentes nas crianças e adolescentes, arriscamo-nos a dizer que Odette resistiu com impetuosidade a tudo isso. Impetuosidade essa que não passou incólume às tentativas de “corrigi-la: vez ou outra ressoava em suas mãos e nádegas a tira de couro duro do chicote de sua mãe por não "servir" com as atividades do lar.

Odette iniciou seus estudos primários e secundários em uma importante escola confessional. Lá estava o desejo da (vovô) Bibina de que a filha se tornasse professora, profissão digna de uma “moça de verdade”. Embora se destacasse intelectualmente na escola, a ponto de adquirir fluência nas línguas inglesa, francesa e espanhola, para Odette a rotina não raro desestimulante de estudos, não era aquilo que de fato fazia seus olhos brilharem e com isto abandonou os estudos pouco antes de concluir a faculdade. O teatro, a música e o desejo de se tornar uma artista, essas sim eram as paixões que brotavam sem pedir licença em seu coração. 

Mas, para isso, Odette teria que enfrentar a difícil tarefa de romper com os supostos desígnios que a condição de mulher havia lhe reservado naquele tempo em que os tradicionalismos se confundiam com os pressupostos “naturais” sobre os “lugares” (secundários) a serem ocupados pela mulher. Ainda assim, Odette teria em sua infância importantes aliados e aliadas (dentro e fora de casa) nessa empreitada: seu irmão José Alberto, pianista e compositor, além de Dilma e Neide, suas amigas do colégio. Odette costumava contar aos risos que, devido ao fato de que sua pressão arterial era mais baixa que o normal, costumava desmaiar em situações como a de se virar bruscamente de cabeça para baixo nos momentos de brincadeiras com as amigas. Tais situações costumavam provocar de proposito a interrupção da aula, a necessidade de que a mãe de Odette fosse chamada à escola e a sua consequente dispensa das aulas.

Movida pela imensa vontade de se tornar uma atriz, Odette frequentava aulas de teatro e canto às escondidas de seus pais. Em um rompante de traquinagem, alterou seu próprio nome e idade para poder atuar e cantar nas casas noturnas do Rio de Janeiro. Fazendo jus à enorme amizade construída entre Odette, Neide e Dilma, estas últimas admiravam a sua atitude da primeira, bem como sua enorme coragem, por exemplo, de abandonar faculdade no último ano para realizar, pela primeira vez em sua vida, uma viagem de três meses para a Europa acompanhada de seu namorado e sua fiel amiga Dilma.

A volta ao Brasil seria a confirmação de que os desejos mais profundos de Odette, produtores e produto da paixão com queria viver a vida, estavam vencendo os desafios que lhe eram colocados dentro e fora de casa. A filha de vovô Bibina começaria a frequentar aulas de canto e teatro, chegando a ter Omar Chariff como seu professor. Entre aulas e namoros, Odette cantava no Rio de Janeiro usando sua identidade criada “Carla Baroni” como seu nome artístico, tendo chegado a cantar com artistas renomados como Walmir Calmon e Cauby Peixoto. 

Talvez o maior “desafio” a que Odette se colocava, inclusive na tarefa educar seu filho Fabio ou também para diferenciar, Fabinho, tenha sido o de sempre lhe apontar seus equívocos e levá-lo à reflexão sobre eles. E tudo isso, ainda que o “cantinho do pensamento” se fizesse necessário e lá Fabinho passasse algumas horas antes de uma boa conversa seguida de um abraço reconciliador. Mais ainda: embora nunca tenha se interessado em se tornar uma dona de casa, não raro demonstrando que não fazia questão de uma bela casa, com talheres e pratos bonitos, copos ou taças sofisticadas, Odette sempre ressaltou a importância da criação de seu filho, da construção de bons valores. Era o que sua mãe sempre dizia: "já que fui obrigada a estudar, deixo meu filho à vontade", aliviando Fabinho da pressão da escolha de uma profissão, mas sempre prezando pela sua educação pessoal, sua personalidade e seu comportamento, acompanhando-lhe em quase tudo que fazia.

Para concluir, fato é que essa breve descrição de Odette não passa de uma pálida tentativa de sintetizar alguns elementos de uma vida que foi plenamente saboreada por ela – inclusive nos seus dissabores. E uma vida vivida por alguém cuja positividade estava sempre à frente da vontade de desistir dos desafios com os quais se defrontava.

Mais a história dela só estava começando...

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