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Fabio F. L. Block

28.05.1940           03.12.2019

Eu, Fabio Block Neto; meu pai, Fabio F. L. Block; e meu avô, Fabio Block. Três Fabios Blocks?

Pois é. Meu avô nasceu no dia 28 de maio e, por uma grande coincidência, meu pai nasceu exatamente no mesmo dia, em 1943. Foi daí que surgiu a ideia do meu avô de dar ao filho o seu próprio nome. Meu pai gostou tanto da tradição que a manteve comigo, mesmo eu não tendo nascido na mesma data. Hoje, sou o único que ainda carrega os nomes “Fabio” e “Block”. Que responsabilidade!

A família do meu pai sempre teve uma história artística e musical muito ampla. Meu avô tocava violão e chegou a atuar na banda de Carmen Miranda. Meus tios eram músicos bem-sucedidos na época, dominando a música clássica, o chorinho e a bossa nova. O chorinho, inclusive, sempre foi uma paixão de todos nós. Lembro-me vagamente de alguns encontros em que eles passavam o dia inteiro tocando em casa. Minha tia era cantora de ópera e se apresentava em vários teatros.

Meu pai frequentou o Conservatório de Música de São Paulo, onde criou alguns grupos musicais. Ele sonhava, um dia, alcançar o sucesso que só conhecia pela televisão. Naquele tempo, o objetivo de ser famoso não era para ganhar muito dinheiro; ele sempre afirmava que quem faturava na época eram as gravadoras, que impunham contratos nos quais os músicos quase sempre saíam prejudicados financeiramente. Como todo artista, meu pai precisou de um emprego fixo secundário para sobreviver e chegou a ser gerente de um supermercado.

Tudo mudou nos anos 60, quando um grupo vindo do Reino Unido chamou a atenção dele e de seus colegas de banda. Era a hora dos Beatles. Aquele rock arrebatava milhões de admirações pelo mundo, com fãs chorando na frente dos palcos só para ver os ídolos. Eles pensaram: "Será esta a nossa oportunidade?". Chegara a vez deles. Foi a hora dos Brazilian Beatles, grupo no qual meu pai tocava contrabaixo.

O sucesso foi imediato. Eram shows todas as noites, gravações de rádio e TV, filmes e participações na Jovem Guarda, onde atuaram ao lado de Ronnie Von, Erasmo Carlos, Moacyr Franco e Wanderléa. Em pouco tempo, eles estavam vivendo nacionalmente o mesmo fenômeno dos Beatles originais. Por conta da agenda de gravações, meu pai mudou-se para o Rio de Janeiro. Foi lá que gravou o filme “Rio, Amor e Verão”.

No auge do sucesso e da juventude, os músicos frequentavam os botecos e boates da noite carioca. Em uma dessas saídas descontraídas, o grupo visitou a boate Arpège, no Leme, onde minha mãe se apresentaria naquela noite. Cercados por seguranças e com a autoestima nas alturas, os jovens começaram a beber e a desfrutar daquele ambiente moldado por amantes da arte.

A noite foi longa até que chegou a hora da apresentação da cantora Carla Odette Baroni. As cortinas se abriram e as luzes iluminaram o centro de um palco intimista. No canto, um pianista dedilhava os primeiros acordes. Do fundo, avistava-se uma sombra mística que ainda não revelava o que estava por vir. Com passos pequenos e lentos, Carla entrou em cena. Mulher de estatura alta — valorizada por saltos bem generosos —, cintura fina e silhueta esguia, ela representava a típica brasileira, com um corpo em formato de violão. De cabelos escuros e olhos verdes, prendia a atenção de todos com seu olhar sensual.

Quando Carla soltou a primeira nota, a plateia imediatamente aplaudiu. Meu pai ficou encantado com a apresentação, com a voz e com a maneira como ela interpretava as canções. Tudo combinava naquela desconhecida radiante de talento nato. Mas não foi daquela vez que ele tomou coragem para falar com ela.

Devido à temporada de gravações na Cidade Maravilhosa, ele sempre retornava ao clube onde havia se apaixonado. Já quase no fim de sua estadia no Rio, meu pai pediu licença aos seguranças do local, aproximou-se e a convidou para um drink. Conversaram por muito tempo e, quando a noite já dava espaço para o amanhecer, ele se ofereceu para levá-la em casa. Despediram-se felizes por terem vivido uma noite agradável e diferente de tudo o que já tinham experimentado. Por alguns meses, viveram um namoro de encontros casuais, porém muito intensos.

Minha mãe já havia viajado para a Europa e sonhava em voltar. Seguindo esse desejo, ela convenceu meu pai a ir junto. Ele já havia realizado o seu sonho na música: estava no auge da carreira, tinha carro e apartamento, mas tudo estava no nome das gravadoras. Será que ele tinha realmente realizado todos os seus sonhos? Acredito que o maior sonho de um homem, na maioria das vezes, é casar-se com o amor de sua vida, construir um lar confortável — de preferência com um cachorro brincando no jardim — e constituir uma família. Sendo assim, ainda faltava muito.

Minha mãe nunca quis se casar formalmente, ter filhos ou criar raízes; era livre, leve e solta. Mas era apaixonada por ele, e meu pai também era um excelente guitarrista, completando tudo o que ela imaginava para uma vida a dois. Após muitos debates, ela tomou a decisão de partir para a Europa. Movido pelo novo objetivo de construir uma vida ao lado dela, meu pai concordou em deixar tudo para trás e seguir rumo à incerteza daquela nova etapa.

Como ele tinha pavor de voar — e só entrava em um avião sob o efeito de fortes calmantes —, decidiram viajar de navio. Partiram do Rio de Janeiro rumo a Portugal em uma viagem marítima que durou 20 dias. Uma beleza para o meu pai, mas um tédio para a superativa Carla, que tentava se entreter de qualquer maneira.

Ao chegarem à cidade do Porto, os dois começaram a tocar em bares e a passar o chapéu em praças e restaurantes, sobrevivendo do talento que Deus lhes dera. Por acaso, o dono de um restaurante famoso em Lisboa, onde costumavam se apresentar, convidou um diretor de teatro que minha mãe admirava muito para ouvi-la cantar: o famoso Badaró. Logo os três ficaram amigos, e a dupla foi apresentada a pessoas que impulsionaram seus primeiros passos. Eles se tornaram um dos primeiros grupos a promover a Música Popular Brasileira na Europa.

Viajaram pela França, Bélgica e Espanha antes de voltarem para Portugal. Foi lá que, em uma noite chuvosa de início de outono, em um ato quente de amor, eu fui gerado. Devido aos vistos e à legalidade da imigração na Europa, meus pais (comigo ainda em embrião) precisavam voltar ao Brasil a cada dois ou três meses antes de retornar ao continente europeu.

Em uma dessas turnês, já no sétimo mês de gestação, eles foram parar em Munique, na Alemanha, ainda sobrevivendo da arte. Convictos de que não podiam viajar mais devido ao estágio avançado da gravidez, encontraram, pela graça de Deus, um local chamado “La Cumbia”. Era um bar frequentado por alemães e latino-americanos que apreciavam música ao vivo. Lá se apresentavam cerca de cinco ou seis músicos de diversos países da América Latina.

Lembro-me das histórias sobre o Pedro, um barbudo manco de bom coração que não dispensava uma boa cerveja alemã e que sempre me tratou como um filho. Havia também o Guilherme, que tocava violão e harpa com um talento nato para a música sul-americana, e o Galo, que além de bom guitarrista era técnico eletricista e resolvia nossos problemas com os equipamentos. O dono do bar se chamava Gabriel, casado com uma alemã muito simpática, e eles tinham um filho recém-nascido chamado Sandro.

Foram eles que alugaram o primeiro lar da Família Pereira Block, ao lado do bar, na Taubenstrasse, nº 2, em Munique. Era um apartamento amplo, com sala, dois quartos, cozinha e um banheiro com banheira — algo que para os meus pais era uma grande novidade. Tomar banho de espuma com água aquecida a gás era o ápice do luxo. Lembro-me de ouvir que, em uma visita rara da minha avó Carmélia e de seu companheiro Alberto, eles se realizavam tomando banho naquela banheira quente. Mas, bem... nesse momento eu ainda não havia nascido.

Eles continuavam fazendo o que sempre fizeram: passando o chapéu em praças e restaurantes. Mas, dessa vez, contavam com a companhia de Peri, um guitarrista e percussionista brasileiro que também buscava a sorte longe de seu país. Peri foi o primeiro amigo verdadeiro dos meus pais na Alemanha. Ele estava presente para tudo: tocava com eles, tomava conta de mim e, assim, criou-se uma grande amizade. Depois dos meus pais, ele foi o primeiro a me carregar no colo, considerando-me praticamente como um filho. No dia do meu nascimento, Peri adotou um cachorro vira-lata com pastor alemão em minha homenagem. Ele era um homem alto, da mesma idade dos meus pais, negro, elegante e com um estilo alternativo e hippie, ostentando seus cabelos rasta. Fez parte da nossa vida até o fim de seus dias. Foi ali que se formou o primeiro grupo brasileiro na Alemanha: o “Trio Veneno Brasil”.

Nasci em 18 de julho de 1971, no Hospital Rechts der Isar, em Munique, às 09h49. Como eu sei disso? Penso que, como todo filho, ouvi a história do meu nascimento por muitos anos em cada aniversário. Hoje, sou profundamente grato por isso e sinto uma enorme falta dessas histórias contadas com tanto orgulho e amor.

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